
São os humanos que sobram.
Os sobreviventes.
É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.
O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos - uma especialista em ser deixada para trás.
É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:
Uma menina
Algumas palavras
Um acordeonista
Uns alemães fanáticos
Um lutador judeu
E uma porção de roubos
Vi três vezes a menina que roubava livros.
(A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak)
O que realmente me levou a comprar o livro foi o que estava escrito na contracapa, simples, direto e certeiro: "Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler". E eu parei, de vez em quando, entre o trabalho, o sono e algumas saídas noturnas.
A Morte, com certeza, já viu de tudo por aí, em todos os cantos. Mesmo assim, é capaz de se impressionar com certas coisas. E quando ela se torna narradora da história de de uma vida, tal vida pode se tornar épica, grandiosa, inigualável por ser cheia de todos os pequenos detalhes necessários para que fique gravada bem fundo em quem a lê. E só quem pode descrevê-la tão bem assim é quem a acompanhou até o último segundo, até a última expiração. Literalmente.
Liesel Meminger é uma garota que viveu, desde pequena, de imensas perdas. Com todos os temores e desejos do final da infância e começo da adolescência, seria uma garota comum, não fosse o fato de ter sido abandonada pela mãe, pouco antes de perder o irmão pequeno, morto durante uma viagem de trem, para ser criada por um casal pobre em meio à Segunda Guerra Mundial em Molching, uma cidade perto de Munique, Alemanha. Acaba encontrando um lar acolhedor junto aos Hubermann: Hans, um pai amável e protetor; Rosa, uma mãe que amava com xingamentos e reprimendas. Conheceu Rudy, um menino que se tornou rapidamente o seu melhor amigo, e com quem disputava partidas de futebol no meio da rua e roubava frutas. Houve também Max Vandenburg, um jovem judeu que se escondeu no porão de sua casa e que acabou construindo uma forte amizade com a menina.
O roubo dos livros começa com o Manual do Coveiro, que ela encontra em meio à neve durante o enterro do irmão caçula, numa tentativa desesperada de ter a memória do irmão sempre por perto. O que é uma ironia, visto que o livro remete ao trabalho da narradora. E falando em ironia, a própria Morte, ao longo das páginas, tenta minimizar o leitor da imagem sinistra que leva por todo lugar, procurando ser agradável, afável. "Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo".
Depois, com a ajuda de Hans nas madrugadas, Liesel começa a conhecer o mundo que se esconde por trás das palavras, e cada vez mais se mostra ávida por conhecê-lo. Às vezes, para a garota, o que importa é somente o prazer de adquirir um novo livro, como se pudesse, com isso, sobreviver a tudo aquilo pelo que passou. E se for roubado, melhor ainda.
Markus Zusak, escritor australiano, nos presenteia com um livro que nos faz pensar no que o ser humano é capaz, tanto para o bem quanto para o mal. Um livro que nos faz pensar no poder e na importância das palavras, quando tudo parece indicar caos e parcos momentos de alegria e esperanças. Um livro forte e sutil como a Morte, na condição de contadora de histórias. Um livro para ser admirado por todas as pessoas de todas as idades, pois contempla, entre tantos detalhes e rostos e cores e atos e lágrimas, a vida.
Para conhecer:
Título: A Menina que Roubava Livros
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrínseca
Número de páginas: 500