Marlon Vilhena
Mania de escritor. Químico e libriano, mas isso não vem ao caso. Um detalhista miserável. Natural de Macapá-AP, morando em Belém-PA.
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Sexta-feira, Julho 03, 2009

Quase-poema

 

E tudo porque não sei o que -

Mas é como se fosse algo muito -

Apesar de tudo, fico -

Pois não tenho nada que -

Ao anoitecer as lágrimas são -

E nunca, nunca mais -

Por falta de cuidado, penso que -

E na alegria derradeira, o céu -

Quando as palavras se vão, resta -

No ar, a estrada -

Domingo, Agosto 17, 2008

Tudo é velho

Tudo é velho como a poeira que se acumula nos cantos e sob meus pés. Nada como uma garrafa de conhaque para espantar maus espíritos e minha solidão: ao menos um copo cheio. Nada de putas e notícias de guerra pela televisão, nada de gritos, nada de corações duros, apenas um piano no fundo da mente, uma voz rasgada e suave e uma pitada de esperança.

Tudo é velho como é velho o modo de ver o mundo, como é velho o pensamento de lutas e desperdícios. Meu álcool é minha luz nesta noite de monstros rastejantes e gigantes de pedra a esmagar sonhos. Contra tudo possuo uma faca, menos que isso, um alfinete, tenho nada.

Tudo é velho como este cigarro em meu bolso roto, este cigarro que vem com teu nome, minha querida. Tudo é velho como eu, e ainda há tanto pela frente. Ficar bêbado sobre a lua, como o outro velho Tom*, e ver no que dá. Mais um copo cheio, querida, sem gelo.

* Referência a Drunk on The Moon, de Tom Waits.

Domingo, Dezembro 16, 2007

O fogo e a memória

Um dia escreverei sobre o fogo e a memória. Uma teimosia da minha mente, que volta e meia me prega a mesma peça. O fogo eu não sei bem qual seria, nem a memória, mas no fundo isso não importa: palavras jogadas ao vento, como sempre. Os livros me olham curiosos dali do canto, encaixotados, empilhados, abertos, virgens, todos eles. Querem uma resposta do fogo e a da memória e eu não sei o que lhes dizer, porque não sei o que dizer a mim mesmo. Palavras.
O mundo acontece, alguém já disse. Eu apenas continuo.
Um dia pegarei Sêneca, o grego sobre a mesa, e talvez venha a descobrir com ele que a brevidade da vida é certa, e talvez lá eu encontre o fogo e a memória que me perseguem. A vida continua, nada acontece. Enquanto isso, nada de novo. De novo. Nada.

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

Orai por nós, mãe

A Salomé Gomes Sares (in memoriam).
As palavras são poucas; o sentimento, incomensurável.


Ergue tua fronte cálida, teus olhos mansos para o mundo. Abraça-me. Abraça-me enquanto te retenho neste instante, em todos estes segundos que me visitas com teus olhos de paz, a fronte piedosa. Posso te chamar de mãe e sei que me acolhes como a um filho, e fico grato. E estás longe, mãe, mas te sinto por aqui. Ainda te sinto me pondo para dormir, servindo leite com biscoitos, beijando-me a testa suada após as brincadeiras no quintal. E sempre o modo forte e terno com que aconselhas. E escrevo para ti somente agora, agora que sei que não mais te abraçarei, não mais te afagarei os cabelos, não verei o sorriso de menina na fronte da mulher de batalhas e glórias. Posso derramar lágrimas, mamãe, mas não as quero comigo. Quero tua paz, teu jeito simples de ensinar e perdoar, teu exemplo. Ergue-te para o mundo, ele agora é todo teu. Orai por nós, mãe. Abençoado sempre seja teu bom e humilde coração. Amém.

Sábado, Setembro 15, 2007

Soneto XCI

Soneto de Pablo Neruda (Cem Sonetos de Amor).

A idade nos cobre como a garoa,
interminável e árido é o tempo,
uma pluma de sal toca teu rosto,
uma goteira corroeu minha roupa:

o tempo não distingue entre minhas mãos
ou um vôo de laranjas nas tuas:
fere com neve ou enxadão a vida:
a vida tua que é a vida minha.

A vida minha que te dei se enche
de anos, como o volume de um cacho.
Regressarão as uvas à terra.

E ainda lá embaixo o tempo segue sendo,
esperando, chovendo sobre o pó,
ávido de apagar até a ausência.

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Livros: roubos, morte, história e vida


São os humanos que sobram.

Os sobreviventes.

É para eles que não suporto olhar, embora ainda falhe em muitas ocasiões. Procuro deliberadamente as cores para tirá-los da cabeça, mas, vez por outra, sou testemunha dos que ficam para trás, desintegrando-se no quebra-cabeça do reconhecimento, do desespero e da surpresa. Eles têm corações vazados. Têm pulmões esgotados.

O que, por sua vez, me traz ao assunto de que lhe estou falando esta noite, ou esta manhã, ou seja lá quais forem a hora e a cor. É a história de um desses sobreviventes perpétuos - uma especialista em ser deixada para trás.

É só uma pequena história, na verdade, sobre, entre outras coisas:


  • Uma menina
  • Algumas palavras
  • Um acordeonista
  • Uns alemães fanáticos
  • Um lutador judeu
  • E uma porção de roubos

Vi três vezes a menina que roubava livros.

(A Menina que Roubava Livros, Markus Zusak)

O que realmente me levou a comprar o livro foi o que estava escrito na contracapa, simples, direto e certeiro: "Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler". E eu parei, de vez em quando, entre o trabalho, o sono e algumas saídas noturnas.

A Morte, com certeza, já viu de tudo por aí, em todos os cantos. Mesmo assim, é capaz de se impressionar com certas coisas. E quando ela se torna narradora da história de de uma vida, tal vida pode se tornar épica, grandiosa, inigualável por ser cheia de todos os pequenos detalhes necessários para que fique gravada bem fundo em quem a lê. E só quem pode descrevê-la tão bem assim é quem a acompanhou até o último segundo, até a última expiração. Literalmente.

Liesel Meminger é uma garota que viveu, desde pequena, de imensas perdas. Com todos os temores e desejos do final da infância e começo da adolescência, seria uma garota comum, não fosse o fato de ter sido abandonada pela mãe, pouco antes de perder o irmão pequeno, morto durante uma viagem de trem, para ser criada por um casal pobre em meio à Segunda Guerra Mundial em Molching, uma cidade perto de Munique, Alemanha. Acaba encontrando um lar acolhedor junto aos Hubermann: Hans, um pai amável e protetor; Rosa, uma mãe que amava com xingamentos e reprimendas. Conheceu Rudy, um menino que se tornou rapidamente o seu melhor amigo, e com quem disputava partidas de futebol no meio da rua e roubava frutas. Houve também Max Vandenburg, um jovem judeu que se escondeu no porão de sua casa e que acabou construindo uma forte amizade com a menina.

O roubo dos livros começa com o Manual do Coveiro, que ela encontra em meio à neve durante o enterro do irmão caçula, numa tentativa desesperada de ter a memória do irmão sempre por perto. O que é uma ironia, visto que o livro remete ao trabalho da narradora. E falando em ironia, a própria Morte, ao longo das páginas, tenta minimizar o leitor da imagem sinistra que leva por todo lugar, procurando ser agradável, afável. "Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo".

Depois, com a ajuda de Hans nas madrugadas, Liesel começa a conhecer o mundo que se esconde por trás das palavras, e cada vez mais se mostra ávida por conhecê-lo. Às vezes, para a garota, o que importa é somente o prazer de adquirir um novo livro, como se pudesse, com isso, sobreviver a tudo aquilo pelo que passou. E se for roubado, melhor ainda.

Markus Zusak, escritor australiano, nos presenteia com um livro que nos faz pensar no que o ser humano é capaz, tanto para o bem quanto para o mal. Um livro que nos faz pensar no poder e na importância das palavras, quando tudo parece indicar caos e parcos momentos de alegria e esperanças. Um livro forte e sutil como a Morte, na condição de contadora de histórias. Um livro para ser admirado por todas as pessoas de todas as idades, pois contempla, entre tantos detalhes e rostos e cores e atos e lágrimas, a vida.

Para conhecer:

Título: A Menina que Roubava Livros

Autor: Markus Zusak

Editora: Intrínseca

Número de páginas: 500

Sábado, Setembro 08, 2007

Era Vulgaris - Queens of the Stone Age

Colaboração de Danilo A. M.

A verdade é que a primeira década do século XXI foi bastante decepcionante quando se trata de música. Pouquíssima coisa interessante foi produzida e a mídia ainda procura desesperadamente pelo novo Nevermind, aquele disco que sacuda as estruturas da música pop e que vire tudo de cabeça para baixo (de novo). Mas em meio à monótona cena atual, repleta de bandas EMO e bandas que tentam soar descoladas, ainda é possível ouvir uma pérola como o Era Vulgaris, novo álbum do Queens of the Stone Age.

O QOTSA apareceu para o grande público com o excelente Songs for the deaf em 2002. Disco que misturava stoner rock com temperos alternativos e, por que não?, "grunges". Após uma queda de qualidade no disco mais pop Lullabies to Paralize, de 2005, o grupo volta com um álbum tão ou mais forte do que o primeiro. Era Vulgaris traz todos os elementos do Songs..., adicionando ainda mais psicodelia e experimentalismo.


O álbum abre com a única faixa mais fraca, Turning up the Screw, e já dá lugar para uma empolgante sequência de 10 faixas onde pop, punk, metal, grunge e outros subgêneros do rock se misturam em perfeita harmonia. Sick Sick Sick é a faixa que abre essa sequência, uma pura adrenalina com seu criativo riff que gruda na cabeça e sua bateria nervosa. Depois dela, passeamos por diferentes momentos: experimentalismo (em I'm Designer e Misfit Love - música que traz uma incrível introdução, onde as guitarras se valem de inúmeros efeitos num crescendo que explode com o começo da parte cantada), beleza (em Into the Hollow, Suture Up Your Future, e principalmente na grudenta Make It Wit Chu), peso (na inquieta Battery Acid, em Run, Pig, Run com estilo do Faith No More), um momento tipicamente alternativo em 3's & 7's, e até uma marchinha de carnaval melancólica aparece em River in the Road.

Era Vulgaris é um álbum para ser escutado do início ao fim, várias vezes, para se atentar aos seus inúmeros detalhes e ser apreciado cada vez mais. É
um item indispensável na discografia de quem procura por boas novidades e já estava achando que o rock não poderia mais surpreender.

A esquecida arte de olhar as estrelas

Olhar as estrelas.

As pessoas não têm mais tempo de olhar para as estrelas. Todas preocupadas com roupas, carros, drinques, olhares provocantes, economias, jogos, estradas, nenhuma se lembra de levantar os olhos para o firmamento à noite. As luzes artificais ofuscam a visão, ninguém as enxerga. As guerras e as crises tomam conta dos noticiários, ninguém se lembra delas. Até mesmo as crianças não se interessam mais pelo que está acima de suas cabeças, pois os pais não se preocupam com o que está acima de suas próprias.

Parte de uma conversa:

"Eu acredito que na Idade Média as pessoas eram mais felizes."

"Mas como você pode dizer algo assim? Mais felizes, naquela época em que havia mais fome, mais doenças, mais guerras, e que era normal morrer com menos de quarenta anos?"

"Hoje não é diferente, talvez seja pior. Você pode morrer a qualquer momento por um atropelameto, por uma bala perdida, por vários meios. As guerras hoje em dia até matam mais do que antigamente. E o número de doenças aumentou absurdamente, assim como a gravidade delas. Só que naquele tempo você podia olhar para o céu à noite e admirar um pouco o mundo em que vivia. Naquele tempo você se sentava à mesa junto com sua família e contava histórias, aproveitava algumas horas com os seus. Naquele tempo você podia contar as estrelas, pois a vida era viver os detalhes dos dias e das noites. Você olha para o céu à noite?"

Silêncio.

"Você não gasta a maior parte do seu tempo pensando em como pagar suas contas, quando pagar suas contas, quando poderá comprar sua casa, seu carro, fazer o curso que você tanto quer, enfim pensando apenas em como viver amanhã?"

Silêncio.

"As pessoas parecem se esquecer das coisas simples da vida. Como olhar as estrelas no céu. Como fazer um jantar em volta da mesa com o pai, a mãe, os filhos, os irmãos, repartindo a comida e os casos do dia. Parecem se esquecer de viver hoje. Pensando no amanhã, sim, porém vivendo hoje também. O mundo anda muito mais acelerado do que há quinhentos anos ou mais, mas ainda somos humanos, do mesmo jeito que éramos naquela época cheia de fome, guerras e doenças. Se as crianças não olham mais as estrelas, isso é um mau sinal. E isso é culpa nossa."

Ah, as estrelas. Simplesmente olhar as estrelas. Como faz falta.

Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Carmela

Carmela colheu estrelas partidas no céu, colou pedaço por pedaço, reformou a noite. Entoou uma canção surda, dançou ciranda e se esbaldou de chocolate. Chamou a chuva, sentiu as gotas, correu com a brisa, sangrou os pés, dormiu de abraço com a terra. Caminhou mil léguas, caminhou mais mil, cheirou, tocou, amou. Carmela acena das gravuras, do sonho dos homens, de todas as esquinas, de cada desejo. Carmela convida, dá as costas e é.

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

Regras e exceções

A amiga reclamando de algo sobre os homens, na volta do almoço. Viro-me para ela e explico que é o seguinte, garota, entenda uma coisa: os homens, via de regra, são todos canalhas. Claro que, como toda boa regra que se preze, há exceções. Assim como, em contrapartida, todas as mulheres são víboras. A amiga me olha desconfiada, não responde. Completo: logicamente, por ser também uma regra, há mulheres que são boas exceções do que acabo de falar. Ela sorri levemente para mim. Concluo rapidamente: mas isso não significa que você seja uma das exceções, querida. Ela me desfere um bom tapa no braço. Canalha, diz, entre uma risada e uma reprovação. Eu não falei? Não falei?